Críticas

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Myriam Glatt
segunda, 26 de março de 2018

Excelente exposição da carioca Myriam Glatt no Centro Cultural Correios de São Paulo. Pinturas sob vários suportes descartados, destacando uma grande instalação de 13 metros !Vale conferir, um mergulho em criatividade e reutilização de materiais do dia a dia.

Ronaldo Do Rego Macedo
quinta, 31 de agosto de 2017

Texto de Cezar Bartholomeu no catálogo da exposição: PINTURA OBLÍQUA Em 1973, John Baldessari realiza trabalho intitulado Throwing Three Balls in the Air (Best of 36 Attempts). Nesse trabalho, o artista tenta fazer com que três bolas sejam capturadas na fotografia formando uma reta. Esse trabalho de Baldessari vem à mente diante de obras de Ronaldo do Rego Macedo, nas quais percebemos 3 marcas de tinta que realizam uma trajetória incerta na superfície da pintura. No entanto, em vez de um experimento conceitual sobre acontecimentos simultâneos, capturados pelo aparato fotográfico e implicados no seu realismo e sua frontalidade, na pintura de Ronaldo nos defrontamos, a partir deste triplo acontecimento, com uma gama complexa de problemas legados por uma ciência da tradição da pintura: esses pontos não configuram uma reta, mas um espaço-tempo. É bem verdade que esses três pontos, em sua obra, também apresentam-se maliciosamente como fatos empíricos. No entanto, como fatos pictóricos, não são tema ou mesmo modelo. Se 3 pontos definem um lugar real no espaço, estes três pontos apresentam-se na tela sobretudo como uma forma em deriva – como recusas. Denotam a clara diferença entre intenção e finalidade pictóricas bem como ironicamente denunciam a falta de desejo de instar na pintura projeto e produto. Por essas recusas, a pintura de Ronaldo do Rego Macedo parece retomar um problema legado a arte brasileira pelo neoconcretismo: o da inclusão na forma de um potencial expectador – a inclusão da presença de seu corpo, de seu olhar, de sua temporalidade e mesmo da possibilidade do consumo das imagens. As formas, assim, aparecem como topologias – como resultado da pressão entre o corpo do expectador e do artista. Ronaldo certamente parte do legado do neoconcretismo, o que motivou relacionarem previamente sua obra a uma “geometria sensível”, expressão possibilitada menos pela subjetivação dos problemas da abstração geométrica e mais por uma ciência da relacionalidade das formas. Suas pinturas, de fato, retomam a visada fenomenológica presente nos trabalhos neoconcretos, mas reatualizam essa visada no panorama contemporâneo. Vê-las é perceber o aparecimento das formas em consequente e ainda mais complexa relação. Na série de obras coloridas, por exemplo, as formas, cujo grafismo é reforçado pela cor e pela ação de dobras, cortes e justaposições extremamente precisos, estão implicadas em estranha obliquidade: a frontalidade dessas obras, sua cor, esse grafismo são parte de um mesmo engodo, pois estão de fato operadas a partir de uma ab-ocularidade: as formas aparecem e se relacionam em primeiro lugar com as outras formas; não somos sujeitos e nem objetos da pintura, somos testemunhas da relação de uma terceira parte. Como nos indica Derrida em Memórias de Cego, sobre a construção de autorretratos, “[…] deve-se supor, além do espelho, outro objeto, um que não vê, um objeto sem visão, ab-ocular, ou no mínimo (pois pode se tratar de um terceiro sujeito com olhos ou aparato óptico) um objeto que, de seu ponto de vista, seu local, não leve nada em consideração, não tenha visão. Apenas o tópico de um objeto ab-ocular, apenas este remédio tópico, resgata Narciso da cegueira.” A pintura se oferece como imagem, tanto quanto se resguarda. Em outras séries, o movimento não é propiciado pela motivação da cor-estrutura, mas a partir das diversas pinceladas quase brancas, sem brilho, que podem ser compreendidas como aparecimento de densidades em relação, umas com as outras. É importante marcar que não se trata de problema compositivo, filiado às tentativas de retornar ao expressionismo abstrato – como um fetiche histórico tardo moderno pela obra de Franz Kline. E se a pintura de Robert Ryman compartilha da gama de problemas instados aqui, as pinturas apresentadas não decorrem da relação minimalista entre fenomenologia e serialidade – da manutenção de um isolamento entre as relações interiores desenvolvidas na obra, e aquelas exteriores, no interesse da objetividade das formas. Ao contrário, aqui também a produção e relação entre as formas ocorre numa obliquidade que denuncia o atravessamento difícil da obra ao expectador, problema inicialmente impetrado por Cézanne. As pinturas de Ronaldo impõem atravessar obliquamente o próprio movimento da pintura como véu. Cézanne, ao problematizar amplamente a pintura como analogia ilusionista, questionava não apenas sua estruturação pela perspectiva linear, mas também cada pincelada como a inscrição de um fato pictórico, do qual atomicamente deriva um ponto na tela, no espaço, a analogia com o real, um gesto, uma forma, múltiplas instâncias motivadas pela fé na futura totalização do quadro que o conhecimento provê, e ainda sacrificiais cegueiras de parte a parte. Como proceder então do real à pintura e vice versa – do todo à parte ou da parte ao todo? Tais questões se coloca Ronaldo, como prática de uma obliquidade prazerosa. Cezar Bartholomeu

jose ronaldo muller silva
terça, 22 de agosto de 2017

Sua primeira individual aos 23 anos, foi cercada de carinho. Sucesso de público e de vendas. Luiz d´Orey é um jovem aplicado em suas pesquisas urbanas e trabalha e estuda no território urbano das ruas de New York, mas poderia ser em qualquer outra grande cidade do mundo. A busca pelo seu criterioso trabalho estético é o que importa. O que lhe move são linhas, perspectivas e cores. O primeiro chute foi dado e agora é jogar o jogo das artes.

Pedro Vasquez
segunda, 12 de junho de 2017

MARCEL GAUTHEROT, UM BRASILEIRO O que a esplêndida exposição Marcel Gautherot  Brasil: Tradição, Invenção ora apresentada no Paço Imperial mais evidencia é o entusiasmo irrestrito e o amor incondicional de Gautherot (1910-1996) pelo Brasil e sua gente. Antes mesmo de aqui aportar em 1940, inspirado pela leitura da tradução francesa do romance Jubiabá, de Jorge Amado, Marcel Gautherot já havia compreendido  em virtude de sua colaboração com o Musée de l’Homme , que muitas das sociedades consideradas “primitivas” são, sob o ponto de vista humano e espiritual superiores às nações europeias colonialistas. Países supostamente civilizados que, naquele exato momento estavam engajados no maior conflito armado de todos os tempos, a Segunda Guerra Mundial, que deixou um saldo de mais de 50 milhões de mortos e criou inédito e impiedoso mecanismo genocida: os campos de extermínio nazistas. Assim como seu compatriota Pierre Verger  com quem editou em 1950 o livro Brésil, do qual também participou o fotógrafo Antoine Bon , Gautherot retratou os brasileiros com enorme simpatia e até mesmo com excessiva indulgência, descobrindo em nós qualidades que em verdade não temos. Assim, mantendo em mente a barbárie europeia, ambos pintaram os brasileiros com tintas positivas e empáticas, como se o povo daquele subdesenvolvido país agrário que engatinhava no processo de industrialização na Era Vargas fosse o legítimo descendente do mítico bon sauvage vivendo na terra sem males. Gautherot amou o Brasil mais do que muitos dos aqui nascidos. Foi um legítimo brasileiro, brasileiro de coração e de adoção. E sua paixão pelo Brasil passava longe do atrativo exercido pelo nosso modo de ser pitoresco e permissivo, que tanto fascínio exerce sobre alguns dos nascidos no hemisfério norte. Muito ao contrário, Gautherot conhecia e respeitava a cultura brasileira, tanto em sua vertente popular quanto na erudita, manifestando grande fé em nosso potencial, com a mesma convicção de Stefan Zweig, autor do conhecido prognóstico que tanto nos empenhamos em desmentir: “Brasil, país do futuro”. Comprova o entusiasmo de Gautherot pelo Brasil duas facetas de seu trabalho bastante destacadas na presente exposição: a valorização do passado colonial e a celebração das arrojadas iniciativas dos arquitetos modernistas, em particular de Oscar Niemeyer, de quem era, praticamente, fotógrafo oficial. Conforme o próprio Niemeyer afirmou por ocasião da precedente exposição dedicada ao legado gautheroniano pelo Instituto Moreira Salles, O Brasil de Marcel Gautherot (2001): “Durante muitos anos, Marcel Gautherot foi nosso fotógrafo preferido. Quantas viagens fizemos juntos por esse Brasil afora! Ele a fotografar os edifícios que projetávamos. Pampulha, Brasília, São Paulo... Como nos dávamos bem e juntos ríamos, satisfeitos, com este velho e querido companheiro. E as fotos que fazia... Como Marcel sabia encontrar os pontos de vista adequados, os contrastes da arquitetura que tão bem compreendia!” Idêntica parceria profissional e afetiva foi por ele estabelecida com o paisagista Roberto Burle Marx, com quem Gautherot chegou a dividir um escritório e cuja obra documentou na íntegra. O mesmo ocorreu na vertente oposta, com Rodrigo de Melo Franco, no então Sphan, atual Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) associado ao Instituto Moreira Salles e ao Paço Imperial nesta importante empreitada: a maior retrospectiva já consagrada ao legado de Marcel Gautherot, compreendendo um total de 300 fotografias. Mesmo sem nunca ter sido funcionário do Serviço do Patrimônio, Gautherot para ele efetuou tantas missões de trabalho que seu acervo no Arquivo Central do Iphan é tão volumoso quanto o dos fotógrafos efetivamente contratados. E, o que é mais importante, nos primeiros tempos do Sphan, quando havia urgência na realização dos processos de tombamento, de modo a preservar grandes conjuntos arquitetônicos  como as cidades históricas mineiras  da devastação provocada pela funesta combinação de cupidez e estupidez, a maioria dos processos de tombamento foi respaldada com a documentação fotográfica realizada por Gautherot, com uma precisão técnica que jamais descurava do aspecto estético. Característica que levou Lucio Costa a celebrá-lo como “o mais artista dos fotógrafos”, conforme assinalou a arquiteta e professora Ana Luiza Nobre no catálogo da citada exposição a ele consagrada pelo IMS. Ao mesmo tempo em que suas fotografias ajudavam a preservar nosso patrimônio histórico construído também ajudavam a sensibilizar o grande público, ao serem veiculadas por publicações de grande circulação como a revista O Cruzeiro. Isso, em um momento em que gigantesca parcela de nossa população não efetuava a correta distinção entre antigo e velho, demolindo alegremente os mais belos exemplos de nossa arquitetura colonial em nome de um nome de um equivocado ideal de progresso que, mais tarde, não hesitaria em destruir conjuntos arquitetônicos inteiros de grande valor histórico para edificar no lugar edifícios no estilo caixa de sapatos, shopping centers, ou, pior ainda, simplesmente para dar espaço a estacionamentos. Neste particular, devemos reconhecer que hoje existe ampla consciência preservacionista em todas as camadas de nossa população, graças a paladinos da inteligência como Marcel Gautherot, Rodrigo de Melo Franco, Mário de Andrade, Gustavo Capanema, Carlos Drummond de Andrade, Alcides da Rocha Miranda e o poeta suíço Blaise Cendars, para destacar apenas algumas das figuras responsáveis pela preservação das cidades históricas mineiras, tão belamente fotografadas por Gautherot. Outra faceta extremamente importante da obra de Marcel Gautherot, inteligentemente destacada pelos curadores, Sergio Burgi e Samuel Titan, é sua vertente humanística, que, a um só tempo, se enquadra e transcende essa corrente da fotografia francesa. Isso porque Gautherot não se limitava a fazer uma boa documentação de caráter social, como tantos de seus colegas egressos do fotojornalismo. Ele ia mais além, produzindo imagens de inequívoco valor antropológico e etnográfico, conforme atestado por sua longa colaboração com a antiga Comissão Nacional do Folclore, capitaneada pelo Prof. Edson Carneiro, que veio a dar origem ao atual Centro Nacional de Folclore e Cultura Popular. Neste particular cumpre o dever de evocarmos o primeiro grande esforço de resgate e valorização do legado humanístico gautheroniano, efetuado por nossa saudosa amiga Lélia Coelho Frota, em 1995, por intermédio do livro (Editora Nova Fronteira) e da exposição de mesmo título realizada na Casa França-Brasil: Bahia: Rio São Francisco, Recôncavo e Salvador. Fotografias de Marcel Gautherot. Lélia, ex-diretora do Instituto Nacional do Folclore, mas, por outro lado, poeta extremamente talentosa e sensível, foi a primeira a chamar a atenção para o fato de que o parisiense de pura cepa, nascido em Saint-Germain-des-Près (vindo ao mundo, ainda por cima, em um 14 juillet, a data nacional francesa) veio para o Brasil motivado pela leitura de Jubiabá. Lélia intitulou seu ensaio introdutório “Marcel Gautherot, francês do Brasil”, parafraseando Marcel Blondet ao homenageá-lo com esse epíteto quando Gautherot foi contemplado com o Prêmio Golfinho de Ouro do Estado do Rio de Janeiro, em 1986, precisamente “pelo conjunto e importância de uma obra inteiramente voltada para o nosso país”. Para concluir, vale lembrar que a curadora suíça Erika Billeter, responsável pela antológica exposição realizada em 1993 na Casa de América, em Madri: Canto a la realidade: Fotografía Latinoamericana 1860-1993, também enfatizou a irreversível adesão de Marcel Gautherot ao nosso país, ao comentar: “Em suas colaborações para revistas europeias sempre se ocupou do tema Brasil, um país que para ele se converteu em sua verdadeira pátria”.